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Carreira · 10 min de leitura

Currículo de desenvolvedor: o que recrutador tech procura em 2026

Como estruturar CV de desenvolvedor que passa no ATS, agrada tech recruiter e leva pra entrevista. Stack, projetos, GitHub e exemplos práticos por nível.

Eduardo Santos
Eduardo Santos
Fundador do MeIndicaLá

CV de desenvolvedor tem regras próprias. Diferente de marketing, vendas ou administrativo. O recrutador tech (interno ou agência especializada) busca prova rápida de capacidade técnica — e tem 30 segundos pra decidir se você passa pra entrevista.

Aqui a gente abre exatamente o que esses 30 segundos olham, e como estruturar seu CV pra entregar resposta em cada bloco.

TL;DR

  • Recrutador tech responde 4 perguntas em 30 segundos: stack, senioridade, fit cultural, prova de entrega
  • Stack vem antes ou logo após sumário — não enterrar no fim
  • 1 página até pleno; 2 páginas pra sênior; 3 páginas só pra Staff/Principal
  • Projetos pessoais valem se forem completos e visíveis (GitHub público + README decente)
  • GitHub no CV: sim, se tem atividade. Se está vazio, não chama atenção pra ele
  • Bullets de impacto, não tarefa: “Reduzi p99 latency de 800ms pra 120ms” > “Trabalhei com performance”
  • Vaga remota em dólar pede CV em inglês + LinkedIn em inglês

As 4 perguntas que o recrutador tech responde lendo seu CV

1. “Qual stack ele tem?”

Resposta esperada: ele sai do parágrafo de sumário sabendo. Stack é a primeira coisa que filtra — recrutador da vaga Python não vai gastar 2 minutos lendo CV de quem fez tudo em Java.

2. “Qual senioridade real?”

Não é o título no LinkedIn — é o que o CV mostra. Bullets de impacto, escopo de projetos, autonomia descrita dão a senioridade real. Pleno escreve diferente de sênior. Sênior escreve diferente de staff.

3. “Esse cara entrega ou só fala?”

Aqui mora o mais importante. Bullets vagos (“trabalhei com microserviços”) matam. Bullets concretos (“desenhei a migração de monolito Django pra 4 microserviços em FastAPI, queda de 40% em latência média”) salvam.

4. “Vai dar match com o time?”

Soft signals: open source (colabora), participação em comunidade (ativo), blog/posts (comunica), domínio (“trabalhou no setor X já”). Recrutador tech experiente pesa esses sinais.

A estrutura ideal

[Nome]
[Cargo desejado] · [Localização ou Remoto] · [E-mail] · [LinkedIn] · [GitHub]

SUMÁRIO  (3 linhas)

STACK PRINCIPAL  (lista categorizada)

EXPERIÊNCIA  (do mais recente ao mais antigo)

PROJETOS RELEVANTES  (opcional — se tiver coisa boa)

FORMAÇÃO

CERTIFICAÇÕES  (se relevante)

IDIOMAS  (se relevante)

Diferença pra CV não-tech: stack vem logo após o sumário, não no fim. Recrutador tech quer ver tech antes de tudo.

Como listar a stack

A pior forma:

❌ “Python, JavaScript, Java, C#, Go, Rust, PHP, Ruby, Kotlin, Swift, SQL, MongoDB, PostgreSQL, Redis, Kafka, RabbitMQ, AWS, GCP, Azure, Docker, Kubernetes, Terraform, Ansible, Linux, Git, GitHub, GitLab, Jira, Slack, Figma, Notion…”

Recrutador tech bate o olho e classifica como bullshit. Ninguém é sólido em 30 stacks.

A forma certa, categorizada:

Linguagens: Python (proficiente), TypeScript, Go (intermediário) Backend: Django, FastAPI, Express Frontend: React, Next.js Banco/Infra: PostgreSQL, Redis, Docker, Kubernetes (EKS), Terraform Cloud: AWS (S3, Lambda, RDS, ECS) — 4 anos Observability: Datadog, Grafana, Sentry

Categoria + nível + tempo opcional. 5-8 itens por categoria, no máximo. Recrutador lê em 5 segundos e sabe exatamente o que você manja.

Não invente nível

“Proficiente, intermediário, básico” são categorias úteis, desde que honestas. Recrutador testa na entrevista — coloca como “proficiente” o que você consegue ensinar pra alguém. Coloca como “intermediário” o que você usa mas precisa consultar doc.

Como escrever bullets de experiência (por nível)

Júnior (0-2 anos)

Foco: stack tocada + projeto entregue + soft signal de aprendizado.

✅ “Implementei feature de notificação push em React Native integrada com Firebase Cloud Messaging. Coberto por 8 testes unitários (Jest), deployed via Bitrise. Aprendi pipeline mobile do zero em 2 meses.”

3-4 ferramentas, 1 entrega clara, 1 sinal de growth. Recrutador júnior valoriza isso mais que liderança.

Pleno (2-5 anos)

Foco: escopo + impacto mensurável + autonomia.

✅ “Liderei refatoração do módulo de pagamento, migrando de Stripe pra Adyen em 3 meses. Reduzi erro de transação em 35% e abri caminho pra integração com PIX nativo. Coordenei 2 devs juniors no processo.”

Escopo claro, métrica real, sinal de autonomia + leve liderança. Esse bullet move pra entrevista.

Sênior (5+ anos)

Foco: decisão técnica + impacto sistêmico + influência além do código.

✅ “Desenhei a migração do monolito Django pra arquitetura de 4 microserviços em FastAPI, ao longo de 6 meses. Resultado: queda de 40% em p99 latency e capacidade de deploy independente por time. Mentorei 5 devs ao longo do processo.”

Decisão arquitetural, métrica forte, escala humana. Sênior é avaliado pelo escopo de decisão, não pela linha de código.

Staff/Principal

Foco: estratégia técnica de plataforma + multiplicar impacto + influência cross-team.

✅ “Liderei tech strategy de plataforma de dados envolvendo 3 squads e 15 engenheiros. Defini roadmap de migração pra lakehouse (Databricks), gerando economia projetada de US$ 800k/ano em compute. Apresentei case na AWS re:Invent 2025.”

Escopo de plataforma, dinheiro real, visibilidade externa. C-level lê esse bullet.

Projetos pessoais: quando vale colocar

Vale se atende todos os critérios:

  • ✅ Está público no GitHub com README decente
  • ✅ Está completo (não é fork esquecido nem TODO de 6 meses atrás)
  • ✅ Demonstra skill que a vaga pede
  • ✅ Tem alguma engagement (estrelas, forks, deploy live)

Se não atende, não coloque — vai parecer enrolar.

Exemplos bons

✅ “rust-cli-tool (github.com/usuario/rust-cli-tool) — CLI em Rust pra automatizar deploy de configuração K8s. 180 estrelas, usado em produção pela [Empresa]. Cobre 95% em testes.”

✅ “finance-dashboard (live demo) — dashboard pessoal de finanças em Next.js + Supabase. 5k usuários depois de 6 meses, postado no Hacker News.”

Exemplos ruins (não coloca)

❌ “meu-portfolio — site pessoal feito em HTML” ❌ “curso-react — projeto de aula seguindo tutorial de YouTube” ❌ “todo-app — TODO list em React”

Esses são genéricos demais. Recrutador detecta como “tutorial follower”.

GitHub no CV: sim ou não?

Coloque o link no topo do CV (junto com LinkedIn) SE:

  • Tem atividade nos últimos 3 meses
  • Tem pelo menos 1-2 repos próprios decentes (não só forks)
  • README dos repos próprios é legível
  • Não tem repo embaraçoso (senha hardcoded, código de aula, “test123”)

NÃO coloque SE:

  • Último commit é de 2 anos atrás
  • Só tem forks, nada próprio
  • Repos são todos “tutorial X” sem evolução
  • Tem histórico de senha exposta ou chave de API

Quando GitHub é vazio, recrutador interpreta como red flag (pra dev). Melhor não chamar atenção pro vazio.

Pra Júnior sem GitHub: alternativa

Coloca link pra um projeto deployado:

✅ “Projeto: app de receitas — deployReact + Firebase

Mostra entrega, mesmo sem GitHub histórico.

Senioridade: como sinalizar sem mentir

Recrutador identifica senioridade real em 4 sinais:

  1. Verbos de ação no bullet: “implementei” (júnior) → “liderei” (pleno) → “desenhei” (sênior) → “defini estratégia” (staff)
  2. Escopo descrito: feature → módulo → sistema → plataforma
  3. Métricas envolvidas: tempo (jr) → bug count (pl) → latência/throughput (sr) → custo/receita (staff+)
  4. Pessoas mencionadas: solo → 2-3 colegas → time → cross-team

Inflar pra cima queima. Júnior escrevendo “Liderei a refatoração arquitetural” sem ter liderado vira pegadinha na entrevista.

Erros típicos de CV de dev

Erro 1: “Apaixonado por tecnologia”

Todo dev é apaixonado por tecnologia. Não diferencia. Substitua por entrega concreta.

Erro 2: Listar todas as linguagens que viu na faculdade

CV de dev sênior listando “C, C++, Pascal, Visual Basic, COBOL” porque viu uma vez na faculdade. Recrutador descarta como signal de inflação. Lista só o que você usa nos últimos 2-3 anos.

Coloca github.com/usuario com último commit de 2022. Pior que não colocar. Ou ativa, ou omite.

Erro 4: Sem métrica em nenhum bullet

CV todo de tarefa, zero impacto. Júnior pode passar, pleno pra cima vira commodity. Coloca métrica em pelo menos 50% dos bullets.

Erro 5: CV de 4 páginas pra pleno

3 anos de carreira, 4 páginas. Recrutador desiste no meio. Corta pra 1 página: o que tá nas páginas 2-4 não é diferenciador.

Erro 6: Foto e cor no CV de dev

CV tech é sóbrio. Foto + decoração visual funciona pra design ou marketing, não pra dev. Foco em conteúdo legível, fonte Inter ou similar, uma coluna.

Erro 7: Stack desatualizada

CV de 2024 dizendo “experiência em jQuery, AngularJS (1.x), Bower”. Sinaliza obsolescência. Mesmo que tenha esse fundo, foca no que é atual (React, Vue moderno, Next).

Full-stack vs especialista: como posicionar

Full-stack

Estrutura: stack categorizada com frontend + backend + infra, mas escolhe 1 ferramenta forte por categoria.

✅ “Frontend: React + TypeScript (4 anos). Backend: Node.js + Express (3 anos). Infra: AWS (S3, Lambda, RDS) — gestão direta dos serviços.”

Não tente cobrir tudo. “Full-stack” significa “competente em frontend E backend”, não “expert em 12 frameworks”.

Especialista

Estrutura: domina 1 área e mostra profundidade.

✅ “Backend Engineer especialista em sistemas de pagamento. Stack: Go + PostgreSQL + Kafka. 5 anos em fintechs. Implementei integração com 6 PSPs e processei R$ 2bi em volume.”

Especialista vende profundidade, não largura. Atrai vaga sênior, paga melhor.

Vaga remota em dólar: o CV em inglês

Mercado internacional remoto pede:

  • CV em inglês (não tradução literal — adapta)
  • LinkedIn em inglês
  • Métricas em USD quando faz sentido (revenue, savings)
  • Sem foto (anti-discrimination laws)
  • Telefone com country code (+55 11 9…)
  • Localização: “Brazil (Remote)” ou “Remote, Brazil-based

Stack vira mesma coisa, mas bullets são reescritos — em inglês americano, active voice e verbos fortes funcionam melhor:

  • ❌ Tradução literal: “I was responsible for the migration”
  • ✅ Active: “Led migration from monolith to microservices, reducing p99 latency by 40%“

FAQ

Devo usar “Front-End” ou “Frontend”?

Frontend (junto, sem hífen) é o padrão da indústria em 2026. Front-end (com hífen) é aceito mas levemente datado.

Posso colocar projeto da empresa anterior no CV se foi privado?

Pode descrever no CV (entrega, stack, impacto), mas não compartilha código. Bullets do tipo “Implementei sistema de notificação em Kafka” funcionam sem expor código fechado.

Skills pessoais ou ferramentas — tudo na mesma seção?

Categorias separadas funciona melhor: “Linguagens”, “Frameworks”, “Cloud”, “DevOps”. Recrutador escaneia em segundos.

Vale a pena fazer certificação AWS/Google Cloud só pro CV?

Sim, pra mid-level. AWS Solutions Architect Associate / Google Professional Cloud Architect são keywords altamente buscadas. Pra sênior, certificação importa menos que case real.

Como lidar com gap de 6+ meses?

Contextualiza honestamente: “Sabático: estudei Rust e contribuí pra projeto X open source” ou “Gap: cuidados pessoais (saúde família). Mantive prática com [projeto pessoal X]”. Esconder vira suspeita maior.

Português vs inglês na descrição da experiência?

Idioma da vaga. Se a vaga é BR, CV em pt-BR. Se é remota internacional, CV em inglês. Não misture — fica estranho.

Tenho 15 anos de experiência. Coloco tudo?

Não. Top 3-4 últimas posições com detalhe, depois “Experiências anteriores: [Empresa] (Cargo, ano), [Empresa] (Cargo, ano)” sem bullet. CV não é histórico completo — é resumo dos últimos 10 anos relevantes.

Outras leituras

Fechamento

CV de dev em 2026 é exercício de clareza técnica + prova de impacto. Recrutador tech vê centenas por semana — quem se destaca é quem responde rápido as 4 perguntas (stack, senioridade, entrega, fit) sem fazer ele cavar.